03 julho, 2015

Do amor...



E não espero um amor que me complete. Sou inteira em mim. Espero um amor que me ajude a olhar para as coisas que não consegui por limitar a retina. Um amor que entre em minha casa, abra as cortinas, mude meus móveis e me faça habitar em minhas raízes produzindo outros frutos. Amor que me apresse em minha demora em levantar aos domingos e que me desacelere para dormir durante a semana. Espero um amor que não mude minha crença, mas que aumente minha fé. Um amor que contradiga os ditados, a rotina, os limites. Um amor que não me compre livros, mas que escreva comigo, em vida, uma poesia sem ser decorada. Espero um amor que não me queira rasa e comum, mas que ajude a cavar em mim o que tenho receio de conhecer. Um amor que me traga perigo e frio na barriga, que me dê o nervosismo de quem ainda está se apaixonando. Espero um amor que não prometa envelhecer ao meu lado, mas de sermos jovens até o fim das nossas vidas. Espero um amor que não me prive da liberdade de ficar em silêncio. Um amor que me irrite, me torture, me tire do sério para que eu não seja sempre um mar sem ondas. Espero um amor que me admire por tudo que sou e por tudo que não escolhi ser. Espero um amor não me ensine o caminho do destino, mas que me diga que é possível desaprender o que esperam de nós. Um amor que me ajude a construir a felicidade, mas que também me faça doar os ombros para as tristezas. Espero um amor que ame minha inutilidade, meu cansaço, meus desastres, meus fracassos, minhas angustias – alguém que respeite o que em mim não é bom, produtivo, admirável ou útil. Um amor que tenha gosto por viagens, mas que saiba voltar. Espero um amor que perde o horário, que demore para ler o cardápio, que respeite as pessoas não só pelos seus nomes. Espero um amor que tenha demora em me despir e memória para me vestir. Espero um amor que saiba meu tempo e não me diga para apressar ou demorar os passos. Espero um amor que saiba o valor dos filhos que teremos ou não. Espero um amor que honre seus pais, que sente falta dos seus avós. Espero um amor que conte suas diversas histórias com o entusiasmo de quem tem uma novidade escondida no bolso. Espero um amor que respeite o caminho que percorri, que não faça descaso da minha dor. Espero um amor que leia os jornais para mim e diga que será um dia de sol sem consultar a previsão. Espero um amor que deite ao meu lado, que envolva seus braços sobre mim e que saiba embalar até adormecer os medos que não conto. Espero um amor que me dê um novo sobrenome. Não espero um amor que me complete, mas que me estenda.

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